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Arquivo de setembro de 2011

Imi wa nan desu ka?

Postado por admin em 12/set/2011 - Sem Comentários

Andando pelas ruas de Tóquio via minha vida completamente diferente da qual estou acostumado em São Paulo. Cada instante prometia novas descobertas, novos lugares, novas pessoas. Percebi com isso o quanto é interessante o processo de entender como funciona o lugar onde você está. Escapei de um Japão que todos já conhecem, simplesmente explorando o que encontrava pelo caminho.

Vivi com uma família japonesa pouco tradicional. Nada de regras rigorosas de etiqueta. Passamos horas e horas assistindo juntos aos divertidos filmes, séries e programas de entretenimento na TV. Conversava sobre música e tocava guitarra com o filho mais novo, discutia moda e estilo com a filha mais velha que se vestia num visual excêntrico de Shibuya. Recebia dicas de tecnologia da mãe da família, que até mesmo se voluntariosa a ir comigo comprar um notebook em Ikebukuro. Conseguimos um bom desconto, pode acreditar! Havia também o animado Sr. Hasunuma que arriscava palavras em inglês para poder comunicar-se melhor comigo. Quando o inglês não resolvia, mímicas eram a salvação, mas foi muito bom deixar o português de lado e notar que algumas palavras se tornam automáticas com o tempo e você consegue expressar qualquer coisa. Enfim, eram uma segunda família, queriam que eu me sentisse em casa, me ajudar com o que fosse preciso, seja com remédios enquanto estive doente ou me levando aos pontos turísticos. É muito importante deixar bem claro seus interesses, preferências e objetivos. Com isto, a família Hasunuma tornou mais rica minha experiência.

Estudei na Kudan Institute of Language and Culture. A primeira coisa que me impressionou foi a diversidade de nacionalidades. Fiz um teste de nível e cai numa sala com coreanos, russos, franceses e americanos. No fim acabei aprendo outros idiomas além do japonês. Fiz bons amigos e não me senti diferente, melhor ou pior do que ninguém, pois estávamos num mesmo nível, na mesma condição de estudantes num país estrangeiro. Os professores do curso são gentis e atenciosos, motivados a lecionar. Descontraída, a aula se tornava um bate papo e tirava proveito de coisas nas quais os alunos se identificavam. São 6 professores diferentes que alternam entre os dias da semana. Mesmo as duas curtas aulas de Kanji possuem dois professores diferentes. No dia seguinte, com outro professor fazendo a revisão, conseguia tirar minhas dúvidas da aula anterior. O problema era ter lição de casa todos os dias, mas nada que a mãe da família Hasunuma não possa ter me ajudado. As matérias não são difíceis, há muita conversação e leitura. A sala trabalha em grupo, discutem assuntos em japonês e força os professores a serem criativos. O tempo passa de pressa com todas as atividades propostas, é preciso prestar atenção aos detalhes. Além das aulas normais, a escola possuía atividades extras. Para aproveitar bem minha viagem participei de todas! Aula de cerâmica, história do Japão, sushi, conversação e origami. São feitos intervalos entre as aulas. Certo dia, comprei um refrigerante com embalagem de pêssego numa loja de conveniência e trouxe para sala de aula. Era um pouco ácido, mas não me importei. Até que um colega apontou e disse: – “Isso é saquê!”. Todos riram até mesmo os professores. Comprei a lata de refrigerante pela embalagem de frutas, mas não prestei atenção ao Kanji que dizia 4% de álcool. No fim do dia, o aprendizado não se limitada apenas a frequentar à escola.

Viajei numa época difícil, após o terremoto seguido por tsunami e problemas nucleares do dia 11 de março deste ano. Ainda era possível sentir o impacto econômico e social do acontecido. Durante 20 dias ainda houve tremores, havia racionamento de energia, alguns alimentos eram evitados e minha família extremamente preocupada no Brasil. Porém nada disso me impediu de aproveitar cada instante. Conheci os lugares que sempre sonhei como a Torre de Tóquio, o porto de Yokohama, Budokan Arena, Akihabara, a travessia de Shibuya, o parque Ueno e o famoso templo em Asakusa. Perdi-me no complexo sistema de trêns e metrôs de Tóquio, conheci o canal de TV da NHK e comi Lamen num tradicional e simples restaurante, perdido no centro da cidade. Os japoneses como prestadores de serviços são muito atenciosos, no Brasil não há tanta gentileza quando se é atendido numa loja. Experimentei lanches no Mc Donald’s e notei que sim, o sabor é o mesmo! Visitei o museu de cera e tirei uma foto ao lado de Albert Einstein. Fui a dois shows de rock, incrivelmente bem organizados e pulei ao lado dos japoneses com músicas que ainda não entendia muito bem. Com meu amigo coreano joguei bola contra japoneses, ganhamos e fizemos novos amigos. Conheci Odaiba, talvez o lugar mais bonito de todo Japão e lá pilotei um carro de corrida. E muitas outras coisas além que apenas a primavera e a época das flores de cerejeira puderam me proporcionar. Próxima parada é a China. Andando pelas ruas de Qingdao, quero mais uma vez ver minha vida completamente diferente da qual já pude imaginar.

Muito obrigado DW Brazil.

Wilton Santana